Jesus inaugura a sua pregação com imponente proclamação: “Cumpriu-se o tempo e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho”.Jesus põe-se a anuncia a boa-nova da chegada do Reino de Deus.
Mas, uma vez dito isso, deve-se logo acrescentar que: “o próprio Jesus é a boa-nova (...) Sendo ele a boa-nova há uma identidade entre mensagem e mensageiro, entre o dizer, o fazer e o ser. A força e o segredo da eficácia de sua ação está na total identificação com a mensagem que anuncia: proclama a boa nova não só por aquilo que diz ou faz, mas também pelo que é (Redemptoris Missio, p. 26)”.
Realmente, nas palavras e nas obras de Jesus, na Sua Pessoa mesmo, vê-se a atuação do reino de Deus na história humana “com poder”. Encontramo-la na restauração integral do homem (física e espiritual), sinalizada por Jesus nas curas e no perdão dos pecados. Mais uma vez, vemo-la no estabelecimento, por Ele, de novas relações entre os homens, de fraternidade, amor e perdão, fundadas, de outro lado, numa nova relação com Deus, aceito efetivamente como Deus e Senhor – é o que se pode depreender, por exemplo, da dinâmica da oração do Pai Nosso. Percebemo-la, ainda, na aproximação preferencial que Ele faz dos pobres e pecadores, deixando-nos entrever o coração misericordioso do Pai, que oferece o Reino como dom e o oferece a todos os homens indistintamente. Sobretudo, vemos a inauguração definitiva do Reino na morte e na ressurreição de Jesus, enquanto manifesta a vitória do poder divino na história, poder que atua em favor dos homens e para sua salvação.
Por tudo isso, podemos dizer com João Paulo II, fazendo eco a expressão feliz de Orígenes, “o Reino de Deus não é um conceito, uma doutrina, um programa sujeito a livre elaboração, mas é, acima de tudo, uma Pessoa, que tem o nome e o rosto de Jesus de Nazaré, imagem do Deus invisível (Redemptoris Missio, p. 33).
A partir do evento pascal, os apóstolos irão anunciar a chegada do Reino de Deus, proclamando a morte e Ressurreição do Senhor. Com isso, manifestavam a compreensão de que o reino é realidade já presente em Cristo Jesus e que sua instauração no mundo mantém uma misteriosa e irrecusável ligação com a Sua pessoa.
Para ilustrar o conteúdo do querigma na igreja primitiva, passamos a registrar a pregação de Pedro e Paulo, conforme no-lo traz os Atos dos Apóstolos:
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“Homens de Israel, ouvi estas palavras! Jesus, o Nazareu, foi por Deus aprovado diante de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus operou por meio dele, entre vós, como bem o sabeis. Este homem, entregue segundo o desígnio determinado e a presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o pelas mãos de ímpios. Mas Deus o ressuscitou, libertando-o das angústias do Hades (...) a respeito dele diz Davi (....) não abandonarás minha alma no Hades nem permitirás que teu Santo veja a corrupção (....) previu e anunciou (Davi) a ressurreição de Cristo, o qual na verdade não foi abandonado no Hades, nem sua carne viu a corrupção. A este Jesus Deus ressuscitou e disso nós todos somos testemunhas (...) Saiba, portanto, com certeza, toda a casa de Israel: Deus o constituiu Senhor e Cristo, a este Jesus a quem vós crucificaste. Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão dos pecados”. (At 2, 22-25. 27.31. 36 – discurso de Pedro)”.
“Sabeis o que aconteceu por toda a Judéia: Jesus de Nazaré, começando pela Galiléia, depois do batismo proclamado por João, como Deus o ungiu com o Espírito Santo e com poder, ele que passou fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo diabo, porque Deus estava com Ele. E nós somos testemunhas de tudo o que fez na região dos judeus e em Jerusalém, ele a quem no entanto mataram suspendendo num madeiro. Mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia e concedeu-lhe que se tornasse visível, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, isto é, a nós, que comemos e bebemos com Ele após a Sua ressurreição dentre os mortos (...) Ele é o Juiz dos vivos e dos mortos, como tal constituído por Deus. Dele os profetas dão testemunho de que, por meio do seu nome, receberá a remissão dos pecados todo aquele que nele crer (At. 10, 36-43 – discurso de Pedro)”.
“A vós foi enviada esta palavra da salvação. Pois os habitantes de Jerusalém e seus chefes cumpriram, sem o saber, as palavras dos profetas, que a cada sábado são lidas. Sem encontrar nele motivo algum de morte, condenaram-no e pediram a pilatos que o mandassem matar. Quando, pois, cumpriram tudo o que estava escrito a seu respeito, retiraram-no do madeiro e o depuseram num túmulo. Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos e por muitos dias apareceu aos que, com ele, tinham subido da Galiléia para Jerusalém, os quais são agora suas testemunhas diante do povo (....) a promessa feita a nossos pais, Deus a realizou plenamente para nós seus filhos, como também está escrito nos Salmos (...) Ficai sabendo, pois, irmãos é por ele que vos é anunciada a remissão dos pecados (Discurso de Paulo - At. 13, 26c-30. 32b-33 a. 38)
A leitura atenta desses textos bíblicos revela logo uma importante conclusão, a saber: a componente fundamental do querigma é a mensagem de “Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, força e sabedoria de Deus (1Cor 1,23-24), que transforma e salva a vida (Subsídios doutrinais 04, CNBB)”.
A este conteúdo fundamental, agrega-se a indicação de que chegou o tempo de realização das profecias, alude-se ao ministério de Jesus – enquanto realidade que precedeu à sua paixão, morte, ressurreição e glorificação – e se apela à conversão e ao batismo, para fins de se receber o perdão dos pecados e o dom do Espírito Santo, caminho pelo qual se cumpre a salvação.
Numa boa síntese, pode-se dizer que o conteúdo do querigma é uma Pessoa. Anuncia-se, como núcleo fundamental da mensagem da Igreja, o evento de Jesus Cristo e a salvação que Ele comunica.
Finalmente, é de interesse perceber a linha de continuidade entre o anúncio querigmático de Jesus e o da Igreja primitiva: em ambos os casos, anuncia-se o tempo do cumprimento das profecias; em ambos os casos, proclama-se o advento do Reino de Deus, salientando-se que, no caso da igreja primitiva, a vinda do Reino se identifica com o ministério, paixão, morte, ressurreição e glorificação de Jesus; e, finalmente, remata-se, nas duas situações, com o apelo à conversão.
Nessa linha de percepção, entende-se melhor as palavras de João Paulo II: “Como outrora, é preciso unir hoje, hoje, o anúncio do Reino de Deus (o conteúdo do ‘kerigma de Jesus) e a proclamação da vida de Jesus (o kerigma dos apóstolos. Os dois anúncios completam-se e iluminam-se mutuamente (RM 16, p. 30).
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